Mesmo após 72 prisões e prejuízo superior a R$ 110 milhões imposto aos criminosos, novos focos reaparecem na reserva; operação agora investiga financiamento e comercialização do ouro ilegal
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Mesmo após 72 prisões e prejuízo superior a R$ 110 milhões imposto aos criminosos, novos focos reaparecem na reserva; operação agora investiga financiamento e comercialização do ouro ilegal
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A ofensiva federal iniciada neste ano para retirar garimpeiros da Terra Indígena Sararé, no Oeste de Mato Grosso, destruiu máquinas, acampamentos, depósitos clandestinos e até túneis usados na extração de ouro. Apesar disso, a atividade ilegal continua pressionando o território e demonstra capacidade de reorganização quando diminui a presença das forças de segurança.
Dados do Ibama obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo mostram que, entre 2025 e 20 de agosto de 2026, foram registrados 2.295 alertas de atividade garimpeira na TI Sararé, alcançando uma área de 976,5 hectares. Segundo a reportagem, o território passou a concentrar o maior número de alertas de mineração irregular entre terras indígenas.
Os alertas não correspondem necessariamente a 2.295 garimpos diferentes. Eles representam detecções de atividade minerária utilizadas no monitoramento da área.
Localizada na região de Pontes e Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade, próxima à fronteira com a Bolívia, a TI Sararé tem cerca de 67 mil hectares e abriga aproximadamente 200 indígenas Nambikwara.
O Portal Descalvados já havia publicado matéria com o início da força-tarefa montada para impedir a permanência e o retorno de garimpeiros à reserva. Desde então, a dimensão da operação aumentou consideravelmente.
Em maio, o Ministério Público Federal informou que, após oito semanas de atuação, haviam sido realizadas 897 ações de fiscalização, com prejuízo estimado em R$ 83,6 milhões à atividade criminosa. Naquele momento, 4.533 pessoas já haviam sido abordadas e 41 presas em flagrante.
No fim de junho, novo balanço do governo federal mostrou que as equipes já haviam localizado e destruído 35 bunkers, usados para esconder equipamentos e permitir a retomada das atividades, e identificado 33 túneis subterrâneos utilizados na exploração do ouro.
A Polícia Federal passou a empregar especialistas em bombas e explosivos para provocar o colapso dessas galerias e dificultar sua reutilização. Até então, haviam sido destruídos ainda 199 acampamentos, 829 motores de garimpo e 34 escavadeiras hidráulicas, além da apreensão ou inutilização de 3,8 toneladas de explosivos. O prejuízo calculado aos garimpeiros já superava R$ 100 milhões.
Entre março e julho, conforme dados citados pela reportagem do Estadão, o balanço subiu para 1.313 ações, 72 prisões e R$ 110,5 milhões de prejuízo imposto às estruturas criminosas.
Os números, entretanto, não significam que o garimpo tenha sido eliminado.
Autoridades ouvidas na apuração publicada nesta terça-feira (25) relatam que novos focos voltam a surgir quando diminui a presença ostensiva das forças de segurança. Um dos fatores apontados para a concentração de garimpeiros na Sararé é justamente o deslocamento de grupos pressionados por operações realizadas em outros territórios indígenas da Amazônia.
No fim de semana de 8 e 9 de agosto, uma nova operação reuniu Polícia Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Força Tática e Rotam justamente para combater uma tentativa de retomada do garimpo dentro da reserva. Participaram também equipes da Delegacia da Polícia Federal de Cáceres.
A necessidade de manutenção da fiscalização levou o Ministério da Justiça e Segurança Pública a autorizar, no início deste mês, uma nova permanência da Força Nacional de Segurança Pública por 180 dias na TI Sararé, em apoio à Funai e aos demais órgãos envolvidos na proteção territorial.
A Sararé deixou de representar apenas um problema ambiental. Investigações e reportagens produzidas ao longo dos últimos meses apontam a participação de grupos criminosos armados na exploração e no controle de pontos de garimpo.
Reportagem da InfoAmazonia/Amazon Underworld publicada em junho, baseada em entrevistas com indígenas e integrantes das forças de segurança, descreveu a presença do Comando Vermelho em áreas da reserva e apontou o garimpo do Cururu como um dos locais relacionados à facção.
O delegado da Polícia Federal em Cáceres Éder Rocha relatou à publicação conflitos entre integrantes da facção, garimpeiros e grupos envolvendo agentes de segurança. Indígenas também relataram circulação de homens com espingardas e fuzis.
Na Serra da Borda, foram identificados ainda sistemas subterrâneos de mineração. A reportagem encontrou referências a túneis que podem alcançar cerca de 150 metros de profundidade, nos quais explosivos são empregados para romper a rocha e retirar o minério.
O cenário ajuda a explicar por que a estratégia federal deixou de se limitar à retirada física de garimpeiros e passou a atacar máquinas, combustível, explosivos, depósitos, acessos e fontes de financiamento.
Uma nova etapa dessa estratégia apareceu em 18 de agosto, com a deflagração da Operação Solo Sagrado, da Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público Federal.
Diferentemente das incursões concentradas dentro da reserva, a investigação busca atingir a estrutura responsável por financiar a mineração, fornecer suporte logístico, movimentar recursos e inserir o ouro extraído ilegalmente no mercado formal.
Foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão e um de prisão preventiva, além do bloqueio de bens e medidas de quebra dos sigilos bancário e fiscal. Mais de R$ 3,5 milhões em recebimentos por meio de instituições de pagamento e empresas de serviços digitais foram identificados durante a investigação. A suspeita é de que esses mecanismos tenham sido utilizados para dificultar o rastreamento do dinheiro.
Uma escavadeira hidráulica pertencente a uma das empresas investigadas chegou a ser encontrada trabalhando dentro da própria TI Sararé. O equipamento foi apreendido e inutilizado, e a fiscalização aplicou multa superior a R$ 3 milhões.
A Operação Solo Sagrado continua em andamento e o material apreendido ainda será analisado. Segundo a Polícia Federal, a investigação pode identificar outros envolvidos e resultar em novas medidas judiciais.
O avanço sobre a cadeia financeira mostra uma mudança de estágio no combate ao garimpo da Sararé. Depois de meses destruindo a infraestrutura instalada dentro da floresta, as autoridades tentam agora atingir também quem financia, organiza e comercializa o ouro.
Ao mesmo tempo, o surgimento de novos focos demonstra que o principal desafio permanece: transformar operações de grande impacto em controle permanente do território, impedindo que máquinas, garimpeiros e organizações criminosas ocupem novamente as áreas das quais foram retirados.