Uso de inteligência artificial já provoca ações na Justiça Eleitoral. Caso envolvendo avatar de Jair Bolsonaro pode ajudar o TSE a definir limites para 2026.
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Uso de inteligência artificial já provoca ações na Justiça Eleitoral. Caso envolvendo avatar de Jair Bolsonaro pode ajudar o TSE a definir limites para 2026.
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As campanhas eleitorais de 2026 começaram oficialmente no domingo (16), mas um dos maiores desafios da disputa já estava colocado antes mesmo de candidatos irem às ruas: até onde a inteligência artificial pode ser utilizada para produzir propaganda política?
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizou as normas para este ano e estabeleceu obrigações específicas para conteúdos produzidos ou modificados por IA. O primeiro grande teste, porém, chegou rapidamente à Justiça: um avatar digital do ex-presidente Jair Bolsonaro, produzido por inteligência artificial e exibido durante a convenção que oficializou a candidatura presidencial de seu filho, Flávio Bolsonaro (PL).
No vídeo exibido na convenção do PL, realizada em 25 de julho, a representação artificial de Jair Bolsonaro avisava inicialmente que imagem e voz haviam sido produzidas por inteligência artificial. Na sequência, manifestava apoio político ao filho e o apresentava como seu sucessor.
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, acionou o TSE alegando propaganda eleitoral antecipada e utilização irregular de IA para favorecer uma candidatura. O grupo pediu retirada do conteúdo e aplicação de multa. A defesa de Flávio sustenta interpretação diferente: argumenta que o material não tentou enganar o eleitor justamente porque informou que se tratava de uma simulação.
A controvérsia tornou o processo especialmente relevante porque poderá estabelecer um precedente para situações semelhantes durante toda a campanha.
As regras do TSE não proíbem genericamente o uso de inteligência artificial. Textos, áudios, imagens e vídeos sintéticos podem ser empregados, mas a propaganda deve informar, de maneira explícita, destacada e acessível, que houve fabricação ou manipulação por IA e indicar a tecnologia utilizada.
O problema aparece quando a manipulação entra no campo das chamadas deepfakes. A regulamentação busca impedir conteúdos artificialmente produzidos ou alterados capazes de difundir informações falsas ou descontextualizadas e também estabelece vedações destinadas a impedir que deepfakes sejam usadas para favorecer ou prejudicar candidaturas.
Em 2026 surgiu outra trava: novos conteúdos sintéticos com imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas não poderão ser publicados, republicados ou impulsionados entre 72 horas antes e 24 horas depois do encerramento da votação.
O embate não está restrito ao avatar de Jair Bolsonaro. A Federação Brasil da Esperança também levou ao TSE outros conteúdos atribuídos à estratégia digital adversária, incluindo vídeos com imagens artificialmente manipuladas envolvendo Lula e Flávio Bolsonaro. Há ainda decisões regionais determinando retirada de peças produzidas com IA, enquanto cópias podem continuar circulando em diferentes perfis — uma demonstração da dificuldade prática de fiscalização das redes.
A judicialização eleitoral também aumentou. Levantamento publicado nesta terça-feira (18) aponta 202 representações protocoladas até 15 de agosto, mais que o dobro das registradas no mesmo estágio da eleição de 2022. IA e desinformação estão entre os fatores associados a esse crescimento.
Além das regras dirigidas às campanhas, o TSE passou a exigir medidas de conformidade de grandes plataformas digitais e também alcançou serviços capazes de gerar conteúdo sintético por inteligência artificial. Em julho, o Tribunal regulamentou obrigações aplicáveis a provedores com grande número de usuários no Brasil.
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou nesta semana que o mau uso da IA representa risco às eleições e destacou a necessidade de impedir tecnologias destinadas a manipular ou enganar o eleitorado.
Para o eleitor, a orientação prática é simples: vídeo realista não significa vídeo verdadeiro. Antes de compartilhar declarações surpreendentes de candidatos ou autoridades, vale verificar a origem da publicação, procurar a identificação de conteúdo produzido por IA e confirmar se a informação aparece em fontes jornalísticas ou institucionais confiáveis.
A campanha de 2026 começa, assim, com uma disputa que ocorre simultaneamente nas ruas, nas urnas, nas redes sociais e nos algoritmos.